quarta-feira, 24 de junho de 2015

Pomba-Gira das Sete Saias


Jalusa Correia era uma bela mulher. Morena de bastos cabelos negros, tinha ainda magníficos olhos verdes que a todos encantava. Aos dezessete anos se casou e teve dois filhos, que foram por algum tempo a razão de sua existência. Quando estava prestes a completar seu vigésimo terceiro aniversário uma tragédia abateu-se sobre ela, seu marido e filhos faleceram em um pavoroso acidente de trem e da noite para o dia tornou-se uma pessoa imensamente triste e solitária. Por muitos anos carregou o peso na consciência por não estar com eles nesse momento. Culpava-se intimamente porque nesse fatídico dia tivera uma indisposição séria e não quisera acompanhá-los na pequena viagem que mensalmente faziam à cidade vizinha. O remorso a torturava como se com isso conseguisse diminuir o tamanho de sua dor.
Dez anos se passaram até que Jalusa voltasse a sorrir, apesar do coração em frangalhos. Foi nesse período que Jorge apareceu em sua vida. O jovem viúvo logo se tomou de amores pela solitária e encantadora mulher. Conhecendo o trauma vivido por ela, teve a certeza de haver encontrado a mãe que sua filha precisava. A pequena Lourdes ficara órfã muito cedo e com apenas seis anos não conseguia esquecer a morte de sua genitora, tornando-se uma criança frágil e assustadiça.
Não demorou muito para que se casassem. No inicio Jalusa foi exemplar, como mãe e esposa, de repente, sem entender o motivo, começou a odiar a pequena menina. Lourdes a irritava, cada palavra dita por ela, entrava em seus ouvidos como uma ofensa. A menina apanhava por qualquer coisa, eram palmatórias, surras de cipós e puxões de cabelo que a deixavam inteiramente dolorida. Com medo de dizer ao pai o que ocorria em sua ausência, Lourdes foi ficando a cada dia mais amarga e triste. Seus únicos momentos de alegria eram os passeios que fazia com o pai. Sempre que Jorge perguntava o que estava acontecendo ela mentia dizendo sentir saudades da mãe.
O ódio de Jalusa pela criança só aumentava, cada vez que a menina chegava perto dela, a lembrança de seus próprios filhos a atormentava: - Como pode uma criatura indecente dessas estar aqui, viva ao meu lado, e meus filhos lindos, mortos? - Era sempre nesses momentos que a menina era mais agredida.
Um dia Jorge resolveu fazer uma surpresa e retornar mais cedo a casa. Ao entrar devagar para não ser notado, ouviu os gritos: - Sai vagabunda! - acompanhado do som de um tapa - abriu a porta justamente no instante em que sua filha era atirada contra um canto da parede. Num átimo, percebeu tudo que estivera ocorrendo em sua ausência. Correu até a mulher e a esbofeteou com rancor exigindo que saísse de sua casa imediatamente. Desse dia em diante, Jalusa passou a morar nas ruas, mendigando e xingando todas as crianças que lhe passassem por perto. Às vezes, chorava muito, mas logo se erguia e gargalhava alto. Em uma noite de intenso frio, seu espírito foi arrancado do corpo e levado para zonas sombrias onde por muitos anos procurou respostas para as mazelas passadas. Depois de ter contato com suas vidas pregressas, percebeu os erros que cometia a cada encarnação onde sempre era a causadora de grandes males causados a crianças e suplicou ajuda para o ressarcimento de suas culpas. Hoje, na vestimenta fluídica de Pomba-Gira das Sete Saias, procura sempre uma maneira de atender aos que a procuram com simpatia e carinho. Quem a conhece em terra sabe de sua predileção por jovens mães e o respeito que nutre por todas as crianças. Está enfim a caminho de uma grandiosa evolução.
Laroiê Dona Sete Saias!

Pomba-Gira Rosa Vermelha



A tarde caia lentamente. Assustada, Rubia apertou o passo quando percebeu, que um homem a seguia. Era Felinto, o bêbado da cidade. Tentou entrar por ruelas estreitas para despistar seu perseguidor. No entanto, ele continuava caminhando, a poucos passos dela. Rubia lançava olhares para todas as direções tentando encontrar alguém que a pudesse ajudar, mas era vão. A cidade estava deserta. Nem os moleques que costumavam correr por ali todas as tardes se faziam presentes nesse dia.


Já tinha ouvido falar das grandes bebedeiras daquele homem, porém nunca soube que ele houvesse feito mal a alguém. Mesmo assim, a respiração pesada, que ouvia, vinda dele, a cada passo que dava, deixava-a apavorada e insegura quanto ao motivo daquela perseguição.

Nunca saia sozinha. Aos dezessete anos, era uma moça de rara beleza e seus irmãos mais velhos nunca permitiam que fosse às ruas sem ter, ao menos um deles, como acompanhante. Nessa tarde escapara da vigilância cerrada e fora ao campo respirar um pouco de ar puro. Ao retornar, satisfeita por ter fugido um pouco da rotina, percebera os passos de Felinto e seu coração gelou. Havia algo de muito errado naquela atitude. Agora já estava correndo. Ele corria também. As mãos fortes do homem agarraram-na e uma delas imediatamente cobriu-lhe a boca.

A mão livre corria pelo seu corpo. Ela já não tinha dúvida quanto ao interesse que despertara. Freneticamente tenta se livrar, mas ele é muito forte. Uma dor aguda anuncia que chegara ao fim. Aquele infeliz tomara sua virgindade à força. Com os olhos nublados pelo ódio vê o homem levantar-se com um sorriso cínico dirigido a ela. Num relance, percebe, perto de si, uma grande pedra pontiaguda. Com rapidez se ergue já com a pedra na mão. Felinto está de costas, absorvido na tarefa de fechar a calça. Sem titubear, ela atinge sua cabeça com um golpe certeiro. Surpreso, o homem se vira. O sangue corre pelo seu rosto. Tomado de ódio e dor, agarra Rubia novamente e aperta-lhe o pescoço com extrema violência. Caem ambos por terra. A moça ainda vê a morte passar pelos olhos do homem, antes de também exalar o último suspiro.

O caminhar do espírito de Rubia, por vales sombrios, foi longo e doloroso. De outras encarnações trazia pesada carga. O assassinato de Felinto só fez aumentar, seu período de sofrimento em busca de conhecimento e luz. Hoje, em nossos terreiros, se chama Rosa Vermelha. A pomba-gira dos grandes amores. Discreta e bela, sua incorporação encanta a todos que a conhecem.

Sarava a pomba-gira Rosa Vermelha!

Pomba-Gira da Figueira

As lágrimas desceram lentamente pelo rosto de Giulia no momento em que ela fechou a porta e olhou para a cama velha com lençóis amarelados. Ali, naquela pocilga, passaria a viver a partir de agora. Antigas lembranças passaram diante de seus olhos. Resquícios de um tempo em que imaginara ser feliz. O casamento com Aprígio parecia ter sido há tanto tempo, e na realidade apenas cinco anos se passaram. O amor enorme que crescia a cada dia nos tempos de noivado, foi aos poucos se transformando em um apagado sentimento sem definição. Amizade? Não, nem isso, apenas desamor, acompanhado de uma cruel sensação de mágoa. Dias e noites passados em solidão conseguiram destruir o castelo de sonhos. Quando conheceu Hugo, amigo de seu marido, o mundo pareceu criar novas cores. Ele sim, lhe dava atenção e carinho. Um mês inteiro de amor sem medida, paixão tórrida que arrebatava seu corpo e mente em total loucura descuidada. Aprígio um dia voltara, sem aviso, e os pegara em sua cama. Alucinado pelo ódio, desferiu três tiros sobre o amigo, matando-o instantaneamente. Ela, nua, correu. A lembrança das janelas se abrindo com pessoas apontando sua nudez entre comentários maldosos ainda envergonha. Alguém (quem seria?), jogou um velho vestido sobre ela que pode enfim cobrir-se, mesmo enquanto corria. Conseguira alguns trocados com uma prima que, no entanto, não a queria por perto e foi com esse dinheiro que alugou esse quarto miserável em que agora se encontra. Não há um amigo, um parente ou mesmo conhecido que a aceite e lhe estenda a mão. Sua vida acabou por completo. Na pequena cidade não há quem não a aponte com maldade (um pouco de nojo também). Ninguém entende o que se passou e ninguém quer escutá-la. Mas se nem ela mesma consegue entender e se perdoar, como esperar isso dos outros? Perdida em meio a esses pensamentos, relanceia o olhar pelo aposento e nota, a um canto, um lençol rasgado. É isso! Pega o pano e percebe que o rasgo, se aumentado, será uma grande tira. Lentamente passa a rasgar e amarrar as tiras. A janela é alta e nela prende a ponta do tecido, a outra ponta é enrolada no pescoço. Arrasta o pequeno criado-mudo e sobe. Com um pequeno pontapé no móvel, lança-se à morte. Seu espírito totalmente atordoado perambulou por negros caminhos de escuridão profunda. Anos se passaram até que Giulia conseguisse perceber os erros que cometera. Hoje, passadas algumas décadas, ela atende em nossos terreiros com o nome de Pomba-Gira da Figueira. Tornou-se mais uma trabalhadora dessa grande falange que, apesar de ser pouco conhecida, sempre é lembrada em nossas trunqueiras.
Laroiê a Pomba-Gira da Figueira!

Surpresa de médium

Minha mãe sempre diz que eu sou cavalo de Ogum! – A informação foi dada nem ele mesmo sabia por quê. A bela mulher cravou-lhe olhos sobre e falou com uma voz rouca que não disfarçava um leve sotaque:
- Adoro Ogum, orixá guerreiro!
- Ah! Eu também gosto muito – mentia para agradar, não tinha afinidade alguma com nenhum orixá – Só não sei se gosto de ser cavalo de alguém...
- Bobinho é só um modo de falar. Os antigos diziam que os orixás cavalgavam seus médiuns, por isso a associação com o cavalo.
Benê não estava ouvindo nada, observava a linda mulher a sua frente. Negra, alta de corpo perfeito contava ainda com dois atrativos que o surpreenderam. Os olhos de um verde infinito e os cabelos que caiam em cachos louros pelos ombros.
Fazia apenas duas horas que a conhecera. Sua mãe fizera de tudo para que ele fosse ao terreiro da mãe Nininha com ela, mas ele não gostava. Cada vez que ia somente ouvia sermões – Desenvolva! Acerte sua vida! Seus orixás querem trabalho! – Não queria. Hoje não. Alegou compromissos e mesmo sem ter marcado nada com ninguém apareceu no salão.
Como era de se esperar não havia nenhum conhecido. Sentou-se junto ao balcão e tomando uma cerveja, passou a apreciar os casais que dançavam. De repente um samba explodiu nas caixas de som. No meio do salão ela surgiu, negra, linda, loura, suntuosa. .A partir desse momento não conseguiu mais despregar os olhos daquela visão. O samba parecia ter sido composto para ela, cadenciando cada requebro do quadril generoso. Por duas vezes ela piscou-lhe deixando-o embasbacado.
Apresentaram-se ao final da música. Irma, esse era o nome da linda moça. Sem ter idéia de como o assunto começou Benê contou que estava ali fugindo de ir ao terreiro.
- Você não devia fazer isso meu querido! Se é obrigação temos que cumprir! – o sotaque o deixava em suspenso cada vez que ela falava. De onde seria? – Eu sou Yalorixá e se estou aqui hoje me divertindo um pouco é porque não tenho compromissos no terreiro.
- Eu gosto, acho bonito, mas não consigo acreditar nesse negócio dos santos virem a terra para ajudar alguém, parece conversa fiada.
- Querido você está muito enganado. Se eles não estivessem sempre junto de nós, você acha que estaríamos aqui em um salão de baile discutindo a respeito deles sem ao menos nos conhecer direito?
Passaram duas horas conversando, Benê tinha certeza que sairiam dali para o motel. Ledo engano a moça só queria falar de santos, orixás, obrigações. Na hora da despedida ela o surpreendeu, queria caminhar. E lá se foram pelo caminho sem mudar o assunto.
De repente ela parou:
- Vou ficar por aqui!
- Como? Aqui não tem nada é só um terreno abandonado...
- Mas é aqui que eu fico meu querido! Correu para o descampado, rodopiou fortemente e gritou, um grito profundo e cortante, antes de sumir no ar - Hei!
Benê ajoelhou-se no meio da rua e entendeu tudo, tinha passado algumas horas com Iansã guerreira. De sua garganta uma louvação rouca surgiu:
- EPARREI OYA! SALVE MINHA MÃE!

Caboclo 7 Nós da Guiné

A tribo Cajurá estava em polvorosa. Iriam ser atacados a qualquer momento pelos seus grandes inimigos da tribo Tatua, eram muitos homens e todos conheciam a sanha assassina que os guiava. O Cacique Guaiajó resolveu procurar o pajé para que este consultasse e pedisse proteção aos deuses. Jarité exercia a função de mentor espiritual da tribo há muitos anos e sempre que havia qualquer problema era o primeiro a ser consultado, muito respeitado por todos, raras vezes havia falhado nos conselhos que dera. Desta vez, porém, Guaiajó não gostou do que ouviu. Tupã não estava de acordo com essa guerra e pedia por intermédio do pajé que o Cacique Tereti, da tribo vizinha, fosse procurado com uma proposta de paz. Caso contrário, todos pereceriam e Cajurá seria destruída e teria todos seus membros dizimados. A índole guerreira do grande cacique, que já vencera inúmeras contendas, falou mais alto, jamais admitiria tal procedimento. Negou-se terminantemente a continuar ouvindo o que lhe dizia o feiticeiro. - Acho que você está velho demais, Jarité. Já não escuta direito o que Tupã fala. Prepare o veneno das flechas e deixe que com Tupã eu me entendo, ele jamais me abandonou, nunca entrei em guerra para perder. Dizendo isso se retirou. Mesmo contrariado, Jarité começou a cozinhar as ervas que serviriam para envenenar as pontas das flechas que seriam usadas e durante todo o preparo rezou pedindo perdão a todos os deuses pelo erro que, sabia, estava para acontecer. No dia seguinte todos os guerreiros foram chamados para receber instruções e as armas com que defenderiam seu território. Porém quando estavam reunidos no centro da taba um grito uníssono se ouviu. Eram os homens da tribo inimiga que raivosamente avançavam sobre eles. Jarité saiu correndo a tempo de ver o fogo sendo ateado sobre a palha que cobria diversas ocas. Preparou seu arco e desferiu várias flechadas nos homens que estavam mais perto. Viu quando uma flecha inimiga certeiramente atravessou a garganta do Cacique Guaiajó fazendo o corpo do valente guerreiro tombar no centro da taba. Esquecendo avançada idade, Jarité passou a gritar palavras de ordem, exortando os guerreiros de sua tribo a avançar sobre os invasores. Sempre disparando para abrir caminho, seguiu até onde estava o corpo do cacique. Ao se agachar para verificar os sinais vitais de seu chefe, uma flecha rasgou-lhe o peito. Ergueu as mãos para o alto e gritou: - Tupã, senhor do universo, receba minha alma imortal! - Seu corpo caiu inerte sobre o cacique e seu espírito vagou para dentro da mata fechada. Era o fim da aldeia Cajurá e o inicio do caminho evolutivo do velho pajé. Hoje, trabalhador da seara umbandista, Jarité cumpre sua missão com as vestes fluídicas do grande Caboclo Sete Nós da Guiné, velho caboclo feiticeiro que, apesar de incompreendido por muitos, segue na trilha da caridade espalhando conhecimento e fé! Okê Caboclo! Sarava seu Sete Nós!

Lições de preto-velho



Cenário: reunião mediúnica num Centro Espírita. A reunião na sua fase teórica desenrola-se sob a explanação do Evangelho Segundo o Espiritismo.
Os membros da seleta assistência ouvem a lição atentamente. Sobre a mesa, a água a ser fluidificada e o Evangelho aberto na lição nona do capítulo dez: "O Argueiro e a trave no olho". Dr. Anestor, o dirigente dos trabalhos, tecia as últimas considerações a respeito da lição daquela noite. O ambiente estava impregnado das fortes impressões deixadas pelas palavras do Mestre: "Por que vês tu o argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu?". Findos os esclarecimentos, apagaram-se as luzes principais, para que se desse abertura à
comunicação dos Espíritos. Um dos presentes fez a prece e deu-se início às manifestações mediúnicas. Pequenas mensagens, de consolo e de apoio, foram dadas aos presentes. Quando se abriu o espaço destinado à comunicação das entidades não habituais e para os Espíritos
necessitados, ocorreu inesperado: a médium Letícia, moça de educação esmerada, traços delicados, de quase trinta anos de idade, dez dos quais dedicados à educação da mediunidade, sentiu profundo arrepio percorrendo-lhe o corpo. Nunca, nas suas experiências de intercâmbio, tinha sentido coisa parecida. Tomada por uma sacudidela incontrolável, suspirou profundamente e, de forma instantânea, foi "dominada" por um Espírito. Letícia nunca tinha visto tal coisa: estava consciente, mas seus pensamentos mantinham-se sob o controle da entidade, que tinha completo domínio da sua psiquê. O dirigente, como sempre fez nos seus vinte e tantos anos de prática espírita, deu-lhe as boas vindas, em nome de Jesus:
-Seja bem vindo, irmão, nesta Casa de Caridade, disse-lhe Dr. Anestor. O Espírito respondeu: "Zi-boa noite, zi-fio. Suncê me dá licença pra eu me aproximá de seus trabaios, fio?".

- Claro, meu companheiro, nosso Centro Espírita está aberto a todos os que desejam progredir, respondeu o diretor dos trabalhos. Os presentes perceberam que a entidade comunicante era um preto-velho, Espírito que habitualmente comunica-se em terreiros de Umbanda. A entidade comunicante continuou: "Vós mecê não tem aí uma cachaçinha pra eu bebê, Zi-Fio ?". - Não, não temos, disse-lhe Dr. Anestor. Você precisa se libertar destes costumes que traz de terreiros, o de beber bebidas alcoólicas. O Espírito precisa evoluir, continuou o dirigente. " Vós mecê não tem aí um pito? Tô com vontade de pitá um cigarrinho, Zi-fio". - Ora, irmão, você deve deixar o hábito adquirido nas sessões de Umbanda, se queres progredir. Que benefícios traria isso a você? O preto-velho respondeu: "Zi-preto véio gostou muito de suas falas, mas suncê e mais alguns dos que aqui estão, não faz uso do cigarro lá fora, Zi-fio? Suncê mesmo, não toma suas bebidinhas nos fins de sumana? Vós mecê pode me explicá a diferença que tem o seu Espírito que bebe whisky, no fim de sumana, do meu Espírito que quer beber aqui? Ou explicá prá mim, a diferença do cigarrinho que suncê queima na rua, daquele que eu quero pitá aqui dentro?". O dirigente não pôde explicar, mas ainda tentou arriscar: - Ora, meu irmão, nós estamos num templo espírita e é preciso respeitar o trabalho de Jesus. O Espírito do preto-velho retrucou, agora já não mais falando como caipira: " Caro dirigente, na Escola Espiritual da qual faço parte, temos aprendido que o verdadeiro templo não se constitui nas quatro
paredes a que chamais Centro Espírita. Para nós, estudiosos da alma, o verdadeiro templo é o templo do Espírito, e é ele que não deve ser profanado com o uso do álcool e fumo, como vem sendo feito pelos senhores. O exemplo que tens dado à sociedade, perante estranhos e mesmo seus familiares, não tem sido dos melhores. O hábito, mesmo social, de beber e fumar deve ser
combatido por todos os que trabalham na Terra em nome do Cristo. A lição do próprio comportamento é que é fundamental na vida de quem quer ensinar". Houve profundo silêncio diante de argumentos tão seguros. Pouco depois, o Espírito continuou: " Desculpem a visita que fiz hoje e o tempo que tomei do seu trabalho. Vou-me embora para o lugar de onde vim, mas
antes queria deixar a vocês um conselho: que tomassem cuidado com suas obras, pois, como diria Nosso Senhor, tem gente "coando mosquito e engolindo camelo". Cuidado, irmãos, muito cuidado. Deixo a todos um pouco da paz que vem de Deus, com meus sinceros votos de progresso a todos que militam nesta respeitável Seara". Deu uma sacudida na médium, como nas manifestações de Umbanda, e afastou-se para o mundo invisível. O dirigente ainda
quis perguntar-lhe o porquê de falar "daquela forma". Não houve resposta. No ar ficou um profundo silêncio, uma fina sensação de paz e uma importante lição: lição para os confrades meditarem.
José Queid Tufaile

Agradecimento

Vagarosamente anda em direção ao mar. Sente a areia molhada afundar sob a pressão de seus passos. A primeira onda, fria, envolve seus pés e arrepia seu corpo inteiro. Não saberia explicar e emoção que a invade enquanto avança . A cada onda que chega, respeitosamente baixa a mão, sente a água e levanta os dedos que fazem o sinal da cruz. Rosana vê a imensidão azul a sua frente através dos olhos marejados. Nunca havia pensado que seria tão grandioso o momento daquela entrega. Tudo havia começado há alguns meses atrás, mais exatamente, onze meses. Chegara ao terreiro de Dona Alzira completamente sem rumo. Depois de passar por uma gravidez cheia de problemas sua filha Sabrina nascera de apenas cinco meses de gestação, estava na incubadora há mais de dois meses e os médicos não lhe davam esperança alguma de vida. Cada vez que visitava o bebê saia mais depressiva. A imagem não era nada agradável e tudo levava a crer que era uma questão de horas apenas. Aconselhada por uma vizinha chegou ao terreiro em um dia de consulta com os preto-velhos. Rosana sempre foi católica, não de ir á missa todo domingo, mas orgulhava-se de estar na igreja pelo menos uma vez no mês, coisa que a grande maioria das pessoas não fazia, mesmo dizendo-se católicos natos. Alzira estava incorporada com Vovò Catarina que a atendeu com carinho e gentileza. Rosana chorou muito, parecia estar em contato com sua avó que falecera há muitos anos e ela nem chegara a conhecer. A preta-velha levou-a até a imagem de Iemanjá e disse : - Fia conte tudo prela. A grande mãe vai te ajudar! Naquele momento, um turbilhão de emoções tomou conta de Rosana e ela aos prantos pediu: - Minha mãe, tire meu bebê do hospital, faça com que ela se salve e eu prometo que levarei um lindo presente para ti! A velha que tudo ouvia falou sabiamente: - Num é perciso oferecer nada fia! Basta fé e confiança. Ela vai te ajudar! Rosana saiu de lá revigorada, parecia que achara o caminho. E foi exatamente o que aconteceu. Uma semana depois o médico responsável chamou-a: - Mãe, sua filha teve uma recuperação milagrosa já podemos mandá-la para casa! Por isso estava alí, na praia, andando em direção ao mar... As lágrimas já não se insinuavam, corriam livremente. Rosana levou as mãos ao pescoço e tirou uma linda corrente de ouro com um pingente de esmeralda que havia ganhado de seu marido. - Mãe Iemanjá, sagrada senhora! Sei que nada quer de mim, mas além do agradecimento que aquece meu coração, desejo que fique com esse mimo. Jogou a corrente na sétima onda que passava por ela nesse instante. Conforme recomendado deu sete passos para trás e virou-se para a praia. Ao longe avistou a querida Vó Catarina com sua pequena Sabrina nos braços. Nesse pequeno instante a felicidade estava em suas mãos...
Luiz Carlos Pereira