quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Lições de um Preto Velho


LIÇÕES DE UM PRETO VELHO

Observe esta breve história. Uma história verídica que infelizmente ocorre com grande freqüência nas reuniões espíritas com os então ainda espectadores encarnados, incrédulos que necessitam da ilusão dos “nomes afamados e títulos memoráveis” para se dar a credibilidade ao espírito mensageiro iluminado.
Cenário: reunião mediúnica num Centro Espírita. A reunião na sua fase teórica desenrola-se sob a explanação do Evangelho Segundo o Espiritismo. Os membros da seleta assistência ouvem a lição atentamente. Sobre a mesa, a água a ser fluidificada e o Evangelho aberto na lição nona do capítulo dez: “O Argueiro e a trave no olho”.

Dr. Anestor, o dirigente dos trabalhos, tecia as últimas considerações a respeito da lição daquela noite. O ambiente estava impregnado das fortes impressões deixadas pelas palavras do Mestre: “Por que vês tu o argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu?”. Findos os esclarecimentos, apagaram-se as luzes principais, para que se desse abertura à comunicação dos Espíritos.

Um dos presentes fez a prece e deu-se início às manifestações mediúnicas. Pequenas mensagens, de consolo e de apoio, foram dadas aos presentes. Quando se abriu o espaço destinado à comunicação das entidades não habituais e para os Espíritos necessitados, ocorreu o inesperado: a médium Letícia, moça de educação esmerada, traços delicados, de quase trinta anos de idade, dez dos quais dedicados à educação da mediunidade, sentiu profundo arrepio percorrendo-lhe o corpo. Nunca, nas suas experiências de intercâmbio, tinha sentido coisa parecida. Tomada por uma sacudidela incontrolável, suspirou profundamente e, de forma instantânea, foi “dominada” por um Espírito. Letícia nunca tinha visto tal coisa: estava consciente, mas seus pensamentos mantinham-se sob o controle da entidade, que tinha completo domínio da sua psiquê.

O dirigente, como sempre fez nos seus vinte e tantos anos de prática espírita, deu-lhe as boas vindas, em nome de Jesus:

- Seja bem vindo, irmão, nesta Casa de Caridade, disse-lhe Dr. Anestor.
 
O Espírito respondeu:
 

“Zi-boa noite, zi-fio. Suncê me dá licença pra eu me aproximá de seus trabaios, fio?”.

- Claro, meu companheiro, nosso Centro Espírita está aberto a todos os que desejam progredir, respondeu o diretor dos trabalhos.

Os presentes perceberam que a entidade comunicante era um preto-velho, Espírito que habitualmente comunica-se em terreiros de Umbanda. A entidade comunicante continuou:

“Vós mecê não tem aí alguma coisa pra eu bebê, Zi-Fio ?”.

- Não, não temos, disse-lhe Dr. Anestor. Você precisa se libertar destes costumes que traz de terreiros, o de beber bebidas alcoólicas e café. O Espírito precisa evoluir, continuou o dirigente.

“Vós mecê não tem aí um pito? Tô com vontade de pitá um cigarrinho, Zi-fio”.

- Ora, irmão, você deve deixar o hábito adquirido nas sessões de Umbanda, se queres progredir. Que benefícios traria isso a você?

O preto-velho respondeu:

“Zi-preto véio gostou muito de suas falas, mas suncê e mais alguns dos que aqui estão, não faz uso do cigarro lá fora, Zi-fio? Suncê mesmo, não toma suas bebidinhas nos fins de sumana? Vós mecê pode me explicá a diferença que tem o seu Espírito que bebe whisky, no fim de sumana, do meu Espírito que quer beber aqui? Ou explicá prá mim, a diferença do cigarrinho que suncê queima na rua, daquele que eu quero pitá aqui dentro?”.

O dirigente não pôde explicar, mas ainda tentou arriscar:

- Ora, meu irmão, nós estamos num templo espírita e é preciso respeitar o trabalho de Jesus.

O Espírito do preto-velho retrucou, agora já não mais falando como caipira:

“Caro dirigente, na Escola Espiritual da qual faço parte, temos aprendido que o verdadeiro templo não se constitui nas quatro paredes a que chamais Centro Espírita. Para nós, estudiosos da alma, o verdadeiro templo é o templo do Espírito, e é ele que não deve ser profanado com o uso do álcool e fumo, como vem sendo feito pelos senhores. O exemplo que tens dado à sociedade, perante estranhos e mesmo seus familiares, não tem sido dos melhores. O hábito, mesmo social, de beber e fumar deve ser combatido por todos os que trabalham na Terra em nome do Cristo. A lição do próprio comportamento é que é fundamental na vida de quem quer ensinar”.
 
Houve profundo silêncio diante de argumentos tão seguros. Pouco depois, o Espírito continuou:

“Desculpem a visita que fiz hoje e o tempo que tomei do seu trabalho. Vou-me embora para o lugar de onde vim, mas antes queria deixar a vocês um conselho: que tomassem cuidado com suas obras, pois, como diria Nosso Senhor, tem gente “coando mosquito e engolindo camelo”. Cuidado, irmãos, muito cuidado. Deixo a todos um pouco da paz que vem de Deus, com meus sinceros votos de progresso a todos que militam nesta respeitável Seara”.

Deu uma sacudida na médium, como nas manifestações de Umbanda, e afastou-se para o mundo invisível. O dirigente ainda quis perguntar-lhe o porquê de falar “daquela forma”. Não houve resposta.

 

No ar ficou um profundo silêncio, uma fina sensação de paz e uma importante lição: lição para os confrades meditarem sobre aquilo que creem ou que necessitam ter para crer!!!!
 
Saravá Yofá! Saravá os Preto-Velhos!!!
Saravá todo o povo do cativeiro!
Adorei as Almas!!!!!!
 
QUEM DECIDE COLOCAR-SE COMO JUIZ DA VERDADE E DO CONHECIMENTO É NAUFRAGADO PELA GARGALHADA DOS DEUSES.
PENSE NISSO!

ROSA BRANCA SEM ESPINHOS(PSICOGRAFIA DE VÓ MARIA)


“Minha família de fé,
Quando a ingratidão e a injustiça baterem a sua porta volte seus pensamentos ao bem,feche os olhos e mentalize o sorriso daqueles que foram beneficiados com o trabalho de amor e dedicação que tem dado frutos doces a muitos corações amargurados pela dor,agindo assim toda a ingratidão e injustiça sofridas serão ofuscadas pela luz que emana de suas ações.
Ah se eu fosse recuar cada vez que recebi uma chibatada, não teria feito nada de minha encarnação, não teria feito meu resgate cármico, não teria caminhado, ficaria encolhida no canto da senzala me lastimando… Agora estou me lembrando… já contei para vocês esse fato que ocorreu na fazenda, em minha última encarnação…
…Entrei na casa grande,já era madrugada, fui chamada pela sinhá,o sinhozinho Pedro Henrique, filho dela,um jovem de 18 anos, se encontrava muito enfermo, jazia sobre o leito, muito pálido delirava de febre. Chovia muito e a pequena ponte de madeira que dava travessia para a vila, havia sido levada pela chuva.Assim sendo,não havia como enviar um escravo para trazer o “doutor”.
Ao ver aquele menino,na hora eu soube que ele desencarnaria, havia chegado o momento dele e nem eu,o “doutor” ou qualquer encarnado poderíamos mantê-lo vivo.Eu Havia trazido aquele menino ao mundo,era eu quem realizava todos os partos da família,e foram muitos que eu trouxe ao mundo com minhas mãos de parteira,aquele menino era querido para mim,como um filho!
Ele me amava também e assim que cheguei perto da cama ele me olhou, sorriu e apertou minha mão. A mãe desesperada e ansiosa por notícias implorava com os olhos que eu salvasse seu filho, eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para mantê-lo confortável, troquei os lençóis baixei sua febre com ervas, ele melhorou… 
Quando o dia já amanhecia, ele sentou-se na cama, chamou sua mãe,disse que a amava, se despediu das irmãs,me deu um abraço apertado, deito-se,sorriu e partiu… Eu o vi sair do corpo e quando passou por mim, com´O VELHO ESCRAVO VÓ DITO AO SEU LADO, me disse “até logo vó, te amo!”e se foi…a família se desesperou, foi muito triste a ausência daquele menino tão alegre e generoso… a mãe se trancou no quarto e o pai, se revoltou e mandou me buscar na senzala, derramou sobre mim todo o seu ódio e sofrimento, mandou que esquentassem o ferro e fez uma marca nas minhas costas com ferro em brasa, ele sabia que eu não tinha culpa, mas precisava que o mundo sentisse sua dor, precisava me ver sofrer para ver se amenizava sua dor e para mim a pior dor era a saudade de meu menino,que eu vi crescer e que quando criança me acompanhava por aqueles campos,fazendo mil perguntas:
‘”VÓ,O QUE É ISSO?VÓ, PARA QUE SERVE ESSA ERVA?VÓ PORQUE A SENHORA É ESCRAVA?VÓ,QUANDO EU FOR DONO DESSA FAZENDA A SENHORA NÃO VAI MAIS SER ESCRAVA,VAI SER SÓ MINHA VÓ!”
era assim que ele era comigo e meu coração doía por sua partida, doía tanto que nem senti a queimadura…Passaram-se dois dias, a mãe, a sinhazinha, veio ao meu encontro, chorando pediu perdão pela atitude do marido, chorando nos abraçamos e juntas fomos ao túmulo do nosso menino, juntas fizemos nossas preces e ela me deu uma rosa branca, quando olhei vi que ela havia retirado todos os espinhos da rosa!
Então ela me disse:”ESSA É A PERFEITA REPRESENTAÇÃO DO AMOR QUE ME UNE AO MEU FILHO,UM AMOR SÓ DE PERFUME SEM A DOR DOS ESPINHOS,É ISSO QUE QUERO OFERECER AOS OUTROS, É ISSO QUE OFEREÇO A SENHORA, É ASSIM QUE SINTO MEU FILHO.”
E eu percebi o quanto é bom espalhar rosas sem espinhos,por mais que a dor visite seu coração, não pense em furar o coração dos outros com os espinhos de sua revolta. Conserve em seu coração sentimentos de amor, perdão e gratidão, os espinhos da ingratidão ferem tanto quanto os espinhos da revolta. Que o perfume da amizade, da fé em Deus e do amor ao próximo lhe ajudem a superar as agruras das provas terrenas.
Ofereço a vocês minha família de alma,
principalmente a você filha, minha rosa branca sem espinhos…PASSE ADIANTE…
Vó Maria”

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

« Faz Caridade Fio!


causosdeumbanda2.jpg
Leni W. Saviscki
“A ingratidão é um dos frutos mais imediatos do egoísmo; revolta sempre os corações honestos.”
Vovó Maria fumegava seu pito e batia seu pé ao som da curimba enquanto observava o terreiro, onde os cambones movimentavam-se atendendo aos pretos velhos e aos consulentes. Mandingueira, acostumada a enfrentar de tudo um pouco nos trabalhos de magia, sabia perfeitamente como o mal agia tentando disseminar o esforço do bem.
Sob variadas formas, as trevas vagavam por ali também.
Alguns em busca de socorro; outros, mal-intencionados, debochavam dos trabalhadores da luz. Muitos chegavam grudados no corpo das pessoas, qual parasitas sugando sua vitalidade.
Outros, por sobre seus ombros, arqueando e causando dores nos hospedeiros, ou amarrados nos tornozelos, arrastavam-se com gemidos de dor. Fora os tantos que eram barrados pela guarda do local, ainda na porta do terreiro e que, lá de fora, esbravejavam palavrões.
Da mesma forma, o movimento dos exus e outros falangeiros se fazia intenso no lado astral do ambiente, para que, dentro do merecimento de cada espírito, pudessem ser encaminhados.
Uma senhora com ares de madame se aproximou da preta velha para receber atendimento. Vinha arrastando uma perna que mantinha enfaixada.
– Saravá, filha – falou Vovó Maria, enquanto desinfetava o campo magnético da mulher com um galho verde, além de soprar a fumaça do palheiro em direção ao seu abdome, o que fez com que a mulher demonstrasse nojo em sua fisionomia.
Fingindo ignorar, a preta velha, cantarolando, continuou a sua limpeza. Riscando um ponto com sua pemba no chão do terreiro, pediu que a mulher colocasse sobre ele a perna ferida.
“Será que não vai pedir o que tenho?”, pensou a mulher, já arrependida por estar ali naquele lugar desagradável. “Vou sair daqui impregnada por estes cheiros!”
Vovó Maria sorriu, pois captara o pensamento da mulher, mas preferiu ignorar tudo isso. O que a mulher não sabia era a gravidade real do seu caso, ou seja, aquilo que não aparecia no físico. Se ela pudesse ver o que estava causando a dor e o inchaço na perna, aí sim, certamente ficaria muito enojada. Na contraparte energética, abundavam larvas que se abasteciam da vitalidade do que já era uma enorme ferida e que breve irromperia também no físico.
Além disso, uma entidade espiritual, em quase total deformação, mantinha-se algemada à sua perna, nutrindo, assim, essas larvas astrais. Para qualquer neófito, aquilo mais parecia um cadáver retirado da tumba mortal, inclusive pelo mau cheiro que exalava.
Com a destreza de um mago, a preta velha sabia como desvincular e transmutar toda essa parafernália de energias densas, libertando e socorrendo a entidade escravizada a ela.
Feitos os devidos “curativos” no corpo energético da mulher, Vovó Maria, que à visão dos encarnados não fez mais que um benzimento com ervas e algumas baforadas de palheiro, dirigiu-se agora com voz firme à consulente:
– Preta Velha até aqui ouviu calada o que a ilha pensou a respeito do seu trabalho.
Agora preciso abrir minhas tramelas e puxar sua orelha.
Ouvindo isso, a mulher afastou-se um pouco da entidade, assustada com a possibilidade de que ela viesse mesmo a lhe puxar a orelha.
“Escutou o que pensei? Ah, essa é boa. Ela está blefando comigo.”, pensou novamente a mulher.
– Se a madame não acredita em nosso trabalho, por que veio aqui buscar ajuda? Filha, não estamos aqui enganando ninguém. Procuramos fazer o que é possível, dentro do merecimento de cada um.
– É que me recomendaram vir me benzer, mas eu não gosto muito dessas coisas…– …e só veio porque está desesperada de dor e a medicina não lhe deu alento, não foi ilha? – complementou a preta velha.
– Os médicos querem drenar a perna e eu fiquei com medo, pois nos exames não aparece nada, mas a dor estava insuportável.
– Estava? Por quê, a dor já acalmou?
– É, agora acalmou, parece que minha perna está amortecida.
– E está mesmo, eu fiz um curativo.
A mulher, olhando a perna e não vendo curativo nenhum, já estava pronta para emitir um pensamento de desconfiança quando a preta velha interferiu:
– Vá para sua casa, ilha, e amanhã bem cedo colha uma rosa do seu jardim, ainda com orvalho, e lave a sua perna com ela, na água corrente. Ao meio-dia o inchaço vai sumir e sua perna estará curada.
Não ousando mais desconfiar, ela agradeceu e já estava saindo quando a preta velha a chamou e disse:
– Não se esqueça de pagar a promessa que fez pra Sinhá Maria, antes dela morrer…
Arregalando os olhos, a mulher quase enfartou e tratou de sair daquele lugar imediatamente.
O cambone, que a tudo assistia calado, não agüentando a curiosidade perguntou que promessa foi essa.
– Meu menino, o que nós escondemos dos homens fica gravado no mundo dos espíritos.
Essa filha, herdeira de um carma bastante pesado por ter sido dona de escravos em vida passada e, principalmente, por tê-los ferido a ferro e fogo, imprimindo sua marca na panturrilha dos negros, recebeu nesta encarnação, como sua fiel cozinheira, uma negra chamada Sinhá Maria.
Esse espírito mantinha laços de carinho profundo pela madame desde o tempo da escravidão, quando foi sua “Bá” e, por isso, única poupada de suas maldades. Nessa encarnação, juntaram-se novamente no intuito de que a bondosa negra pudesse despertar na mulher um pouco de humildade, para que esta tivesse a oportunidade de ressarcir os débitos, diante da necessidade que surgiria de auxiliar alguém envolvido na trama cármica.
Sinhá Maria, acometida de deficiência respiratória, antes de desencarnar solicitou à sua patroa que, na sua falta, assistisse seu esposo, que era paraplégico, faltando-lhe as duas pernas.
Deixou para isso todas as suas economias de anos a fio de trabalho e só lhe pediu que mantivesse com isso a alimentação e os medicamentos. Mas na primeira vez que ela foi até a favela onde morava o homem, desistiu da ajuda, pois aquele não era o seu “palco”. Tratou logo de ajustar uma vizinha do barraco, dando-lhe todo o dinheiro que Sinhá havia deixado, com a promessa de cuidar do pobre homem. Não é preciso dizer que rumo tomaram as economias da pobre negra; em pouco tempo, para evitar que ele morresse à míngua, a Assistência Social o internou em asilo público. Lá ele aguarda sua amada para buscá-lo, tirando-o do sofrimento do corpo físico. Nenhuma visita, nenhum cuidado especial. A madame se havia “esquecido” da promessa. Eu só iz lembrá-la para que não tenha que voltar aqui com as duas pernas inválidas. A Lei só nos cobra o que é de direito, mas ela é infalível. Quanto mais atrasamos o pagamento de nossas dívidas, maiores elas ficam. Por isso, camboninho, negra velha sempre diz para os filhos que a caridade é moeda valiosa que todos possuímos, mas que poucos de nós usam. Se não acordamos sozinhos, na hora exata a vida liga o “desperta-dor” e, às vezes, acordamos
assustados com a barulheira que ele faz… eh, eh, eh… Entendeu, meu menino?
– Sim, minha mãe. Lembrei que tenho de visitar meu avô que está no asilo…
Sorrindo e balançando a cabeça a bondosa preta velha falou com seus botões:
– Nega véia matô dois coelhos com uma cajadada só… eh, eh…
E, batendo o pé no chão, fumando seu pito e cantarolando, prosseguiu ela, socorrendo e curando até que, junto aos demais, voltou para as bandas de Aruanda.
Causos de Umbanda Volume 2 – Páginas 37 a 41 – Vovó Benta / Leni W. Saviscki

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

MÃE DE NADA


Ele rapidamente lê a placa na parede daquela casa: “Joga-se búzios, tarô, faço trabalho de amarração. Mãe Vera da Bahia”. 
Resolve entrar. Na ante-sala varias pessoas aguardam para ser atendidas. Uma moça de olhar triste e perdido. Um homem de gestos afeminados. Uma senhora de idade avançada. 
La dentro do quarto penumbroso, luzes vindas de velas. Sente o cheiro forte de defumação que, não demora, invade a casa. 
Observa os moveis. Realmente mãe Vera vive bem: aparelhos novos estão por toda a espaçosa casa. Uma jovem auxiliar preocupa-se em receber antecipadamente o valor da consulta. 
A moça de olhar perdido puxa conversa com a outra mulher. Sussurra que precisa amarrar um homem casado. Envolvera-se com ele no ambiente de trabalho e mesmo sabendo que é casado, possui filhos, acha que precisa tê-lo a qualquer custo. Diz que já foi a vários terreiros, falou com Exus e Pombas-Gira que lhe recusaram o pedido. Alegaram que ela não deveria deixar um impulso, acabar com a vida daquele homem. Ainda segundo ela, os Exus ponderam que, se tivesse paciência, arrumaria alguém livre para amá-la com o desprendimento que merecia. Nada disso a comove, queria o tal homem casado e pagaria o que fosse preciso. 
A mulher que a ouvia calada concordou com os argumentos usados. Por sua vez disse que estava ali para acabar com sua vizinha, mulher nova e bonita que nunca havia lhe feito nada, ao contrario até tratava-a bem, mas ela não podia suportar a felicidade da vizinha. Já que ela mesma não era feliz, iria acabar com a felicidade da outra. Pagaria a dona Vera para matá-la com magia. 
O homossexual ouvindo a conversa resolve-se abrir: apaixonara-se por um homem e ele embora nunca tenha destratado, deixou claro que era noivo, feliz e nunca iria se envolver com ele. Sendo assim estava ali para que tal Mãe de Santo amarrasse seu homem... 
Embutidos em sua mesquinharia, não notam a presença de alguém, que em seu intimo, estava revoltado, pois tão poderosa Mãe de Santo não passava de uma mulher inescrupulosa que usava a baixa espiritualidade para alimentar a ganância, a cobiça, o ódio nas pessoas. Não percebe a tal mulher que, ao fazer isso esta apenas sendo instrumento dos kiumbas. 
Lá no quartinho, alheia ao que se passa na anta-sala, dona Vera acaba de atender mais um cliente. Envolta pela fumaça e com todas aquelas velas acesas, além de várias imagens de Exús, a mulher de fato impressiona. Ela não esta só: um grande kiumba e seu séquito estão ali prontos a usá-la e sugar as energias daquela gente que ela atende. O kiumba esta feliz: La fora à mais vitimas. 
Dona Vera também esta feliz, pois vai ganhar um bom dinheiro. 
Não sabem que terão uma bela surpresa. O homem que até então estivera ouvindo aquelas pessoas, pede licença para passar na frente, pois tem que viajar com urgência. Os três consulentes o medem de cima abaixo, vêem que estão diante de alguém importante e resolvem aceitar seu pedido. 
Ele entra no quarto. Dona Vera sente o coração bater mais forte. Acha graça aquele homem tão importante estar em sua casa. “Hoje – pensa ela – vou faturar alto!”. 
O kiumba se alvoroça, percebe que aquele homem esta olhando para ele. Mas como pode ser isso? Então percebe ter cometido um erro enorme: o tal homem era um Exu de Lei. A força do Exu lhe envolve de tal maneira que ele sente que precisa sair dali com urgência. E assim faz: desaparece deixando só a Mãe de Santo. 
Por sua vez dona Vera começa a suar frio. Tenta chamar ajuda, mas a voz lhe falta. Pensa que o estranho ira ajudá-la, mas ele se limita a olhar para ela sorrindo. Diz então que chagava a hora dela pagar por prejudicar e enganar tanta gente. Mostra que a mediunidade é como um dom Divino e como tal deve ser respeitada e usada para a pratica do bem, nunca para enganar, jamais para causar discórdias e dor. Completa o sermão e mostra que é um guardião de Exu de lei. 
Dona Vera esta embasbacada, não sabe o que fazer. Suas pernas não lhe obedecem... Exu aproxima-se dela e, à medida que ele avança, ela cai. Quando percebe, seu espírito esta ao lado do corpo. Desesperada ela grita, tenta voltar, mas já é tarde. Exu a agarra fortemente. 
Neste instante os consulentes ouvem um corpo que cai. Entram no quartinho a tempo de ver o homem que some diante dos seus olhos. Todos correm assustados. O Exu gargalha e some. 
Ele não mentiu: iria viajar sim, mas em direção ao Vale das Sombras... Tendo ao lado uma futura hospede. 
Laroiê Exu! 

COMENTÁRIO

Esse fabuloso texto publicado pela Revista Orixás (Especial n.° 5 - Editora Minuano Ltda.) nos faz refletir acerca de práticas infelizes existentes em nossas sociedade.
Quem nunca leu um anúncio como o da figura acima, "Lê-se Búzios, Tarô, Faz Todos os tipos de Trabalhos, traz a pessoa amada em 7 dias, etc." 
Primeiramente, cabe destacar que pessoas que colocam tais anúncios em postes, jornais, muros, etc., não são médiuns Umbandistas. Isso porque, o Umbandista verdadeiro em nenhum momento irá "anunciar" a prática de trabalhos de qualquer espécie, visto que só pratica a caridade. Ainda, não cobraria por qualquer atendimento, pois a caridade não tem preço, devendo dar de graça o que de graça recebeu. Assim, como a mediunidade é um dom concedido por Deus para ajudar o próximo e a nós mesmos, não temos qualquer autorização e motivo para exigir retorno financeiro.
Lugares como esses mencionado no texto são ambientes em que não existe luz. Apenas as trevas ali habitam, através dos Kiumbas (espíritos negativos, que muitas vezes se passam por Exu de Lei) . Infelizmente, em nossa sociedade existem "terreiros" que se dizem de Umbanda, mas que praticam magias baixas, como as de amarração, destruição, desunião, etc. Tais lugares devem ser evitados por qualquer pessoa, visto que nada de positivo se alcançará ali.
Em um verdadeiro Terreiro de Umbanda, os espíritos ali manifestados jamais aceitarão praticar o mal contra quem quer que seja! Ao revés, procurarão orientar o infeliz que busca tais artimanhas que só o amor e a caridade valem a pena e que nossos corações devem ser destituídos de qualquer sentimentos de ódio e rancor se quisermos evoluir. 
Mas, como dito acima, em nossa sociedade são muitas as casas que estão entregues à maldade. Temos notícias de trabalhos de feitiçaria, magia negra, promiscuidade e bebedeiras, tudo dentro de uma casa de deveria ser de oração e respeito. Existem terreiros que mais parecem baile à fantasia e até botecos do que uma casa de Umbanda.
Por isso, caros irmãos, alertamos através deste texto para que não acreditem em promessas fantasiosas. Não comprometa seu karma e sua existência procurando casas que praticam a maldade, que  realizam amarrações e desuniões. Não acredite em casas onde não há doutrina ou que se baseiam em superstições e crendices sem comprometimento.
Lembre-se, o verdadeiro terreiro de Umbanda é um local de respeito e oração, local onde só se pratica a caridade e se prega a evolução. Qualquer lugar onde se faz "algazarra", bebedeiras, evoca-se espíritos inferiores e praticam magias para prejudicar alguém,  não são casas de Umbanda, mas sim  casas de magia negra e devem ser evitadas e até denunciadas para as autoridades competentes.
  Que Oxalá nos ilumine!

domingo, 31 de agosto de 2014

Preto Velho ou Médico ????

Contou-nos uma confreira, das mais atuantes em nossa casa de caridade espiritual e material:
"Que em um certo Centro Espírita situado na cidade de São Paulo, Capital, havia uma noite de reuniões caritativas, que era dedicada a caridade física dos encarnados, isto é, somente para consultas com Entidades Médicas".

"Nas cabinas próprias para consultas médicas a secretária fazia a arrumação final dando os últimos retoques para que tudo estivesse de acordo ao se iniciar os trabalhos; isto incluindo os médiuns cada qual em seu lugar, quando de repente um dos médiuns deu sinal e manifestou-se uma Entidade".

- "A secretária correu para atender a Entidade recém chegada, e qual não foi sua surpresa ao deparar com uma Entidade de Pretos-Velhos".

"Usando sua amabilidade costumeira explicou à Entidade que ela não poderia dar consultas naquela noite, pois aquele dia da semana, era reservado às Entidades Médicas e não à Pretos-Velhos".

- "A Entidade, também, com aquela humildade que lhe era peculiar confirmou com a secretária:"

"Hoje eu não posso dar consulta só as Entidades Médicas?".

"Ao que confirmou a secretária pedindo desculpas e pedindo à Entidade que “subisse”".

- "A entidade se despediu, agradeceu e “subiu”".

- "Passados alguns minutos, se manifestou e se apresentou uma nova Entidade Médica, no mesmo médium, que passou a atender os pacientes nas mais variadas modalidades da medicina".

- "Terminado os trabalhos médicos, todos muito satisfeitos com os trabalhos da nova entidade médica, foram agradecê-la antes da “subida” e pedir o seu retorno".

- "Quando a secretária dos trabalhos, foi se despedir da Entidade, esta dirigiu-se a ela dizendo:"

"Este é um dia reservado para trabalhos só das Entidades Médicas, não podendo Entidades como Pretos-Velhos se manifestarem, não é assim?"
- "Ao que a secretária confirmou e aproveitou o ensejo para pedir à Entidade Médica, se conhecesse a Entidade que se manifestara antes, Pretos-Velhos, pedir as mais sinceras desculpas de coração, pois aquele dia era só de consultas médicas e não pretos-velhos; ao que a entidade aduziu:"

"Pode ficar tranqüila que aquela Entidade que esteve aqui no começo está sabendo e não esta aborrecida com a irmã, pois aquela entidade que esteve aqui no início e não pode trabalhar como tal, era eu mesmo".

A projeção e as formas-pensamentos


Há alguns anos atrás passei por algumas dificuldades, tanto ná área financeira quanto no campo afetivo. Foi uma fase muito difícil da minha vida, porém, analisando a fundo tudo o que estava passando e buscando despertar minha consciência, soube canalizar forças e superar minhas dificuldades

Para isso, contei com a ajuda de irmãos espirituais que estiveram ao meu lado, não como “babás espirituais”, mas como amigos dispostos a me orientar e amparar, sem a intenção paternalista de percorrer o caminho que só cabe a mim percorrer. Entre estes espíritos amigos, está um que se apresentou como sendo o exu Sr. Tranca-Ruas.
Certa noite, já de madrugada, despertei projetado fora do corpo físico, no corredor da minha casa, que liga a sala com a cozinha. Antes que pudesse pensar em fazer qualquer coisa, algo me chamou a atenção no fundo do corredor. Era uma forma monstruosa, parecida com aquele fantasma verde do filme Ghostbusters – Os caça-fantasmas!
Ela veio voando na minha direção e me atravessou. Olhei para trás e vi outro monstro, parecido com o primeiro, que também voou na minha direção, me atravessando.
Pensei, então: – Meu Deus, são espíritos obsessores! Estou sendo assediado.
Imediatamente, comecei a rezar o Pai- Nosso, mas não consegui terminar. Aqueles monstros não paravam de voar, atravessando meu perispírito, fazendo caretas e me provocando no intuito de me assustar. E estavam conseguindo! Recomecei a orar, e nada de conseguir terminar a prece. Então, não tem jeito! – pensei. Preciso pedir auxílio a algum guardião!

Iniciei, mentalmente, uma das preces cantadas do exu Sr. Tranca-Ruas. Assim que comecei a entoar seu ponto de evocação, um espírito de estatura mediana, vestindo uma camisa preta, lenço vermelho na cabeça e segurando uma espécie de cajado em uma das mãos, atravessou a porta que sai do terraço para a sala de estar.
Entrou e, antes que me dissesse qualquer coisa, fui logo pedindo socorro. Disse que estava sendo assediado por espíritos obsessores monstruosos. Ele, então, com muita serenidade e confiança me respondeu:
– Não são espíritos obsessores. São formas-pensamento. São criações emanadas da sua mente. Todos os seus medos e insegurança estão gerando essas formas que estão te assustando.
– E o que posso fazer para acabar com elas? – perguntei ansiosamente.
– Autoconfiança! Se você confiar mais em si mesmo, em seus potenciais, bastará dizer “sumam!” e elas desaparecerão para sempre. Quer ver?
Neste momento, ele ergueu seu cajado e bateu com força, mas sem violência, no chão, e imediatamente aquelas formas-pensamento desapareceram.
Senti uma força me puxar de volta ao corpo físico e acordei (na verdade já estava acordado, só que fora do corpo), voltando a manifestar minha consciência no plano físico denso.
Levantei-me da cama e fui beber um copo d’água, refletindo nos ensinamentos que aquele espírito amigo havia me passado.
Realmente, quantos de nós somos responsáveis pelas dificuldades por que passamos! Quantas vezes, devido a nossa imprudência, atraímos situações que nos causam sofrimento que poderíamos evitar se vivêssemos com maior lucidez espiritual. Quantas vezes geramos pensamentos de medo, acreditando que somos incapazes de superar determinada situação, nos sentindo cada vez mais fracos.
E o que é pior, passamos a usar drogas ou medicamentos na ânsia de acabar com nossa angústia. Isso quando não acreditamos que alguém fez magia negra contra nós ou que estamos sendo obsediados. Na maioria das vezes, nós mesmos é que somos os culpados. Podemos chamar isso de auto-obsessão. E quando determinada idéia é constante em nossa mente (monoideísmo) acabamos gerando as formas-pensamento. As formas-pensamento irão permanecer em torno do nosso campo mental, “gravitando” ao nosso redor, pois nós as alimentamos com nossa energia. Elas parecem ter vida própria, mas na verdade obedecem automaticamente a determinados padrões de manifestação, alguns, inclusive, que fazem parte do inconsciente coletivo. Muito médiuns clarividentes as confundem com espíritos, mas não são.
No meu caso, bastou que eu tomasse consciência de determinados pensamentos negativos que eram comuns, a ponto de serem gerados inconscientemente, para iniciar o processos de desintegração daquelas formas-pensamento.
O processo de autoconhecimento é eterno. Trabalhemos sempre nele para que possamos nos libertar da cadeia de sofrimento em que vivemos, o sansara, como diz a sabedoria oriental.

Conheça-te a ti mesmo!
Eis a lição libertadora!


Escrito por Victor Rebelo
Médium umbandista
Editor da Revista Cristã de Espiritismo

sábado, 16 de agosto de 2014

O Anfitrião do Campo Santo



Da porta do cemitério ao Cruzeiro das Almas, ando e posso perceber o quão é triste o resultado de uma vida inteira no plano material dominada por vaidade, pelo ego e pela ilusão.
Vejo espíritos que perambulam, choram, urram de dor. Sofrem pelos mais variados motivos.
Não aceitam a condição em que se encontram, mas, também nada fizeram, enquanto encarnados, para trilhar um caminho melhor.
Sou incompreendido, taxado de demônio, por que sou um aplicador da Lei, um servidor do Divino Pai Omolu. Ele, um Orixá também muito deturpado no plano material pelo mito, que o define como uma Divindade má e implacável, um demônio.
O homem, especialmente através das religiões mentalistas, conseguiu afastar-se de Deus, da grande Verdade que é nosso Pai Criador.
Quem pode me ver ou, ao menos, sentir minha presença, se não estiver esclarecido, dirá que há um espírito maligno por perto.
Maligno é o preconceito que separa a humanidade e, invariavelmente, conduz estas pessoas ao habitat onde impera a ignorância: as trevas humanas.
Mas, infelizmente, preciso dizer aos senhores e senhoras que leem esta mensagem, que as trevas não estão somente sob os vossos pés. Habitam os íntimos de muitos de vós.
Alguém poderá dizer: ” Como posso eu, um cristão, adorador de Deus, ter trevas em meu interior. O que o senhor está falando é uma heresia!”
E eu retruco: “Infelizmente,  muitos de vós, ainda que pensem desta forma, estão cultivando um pedaço das trevas em vossas almas, quando usam da língua para o próprio benefício e quando disseminam o preconceito.”
Aquele que olha para um semelhante, um irmão seu em Deus, com superioridade, está atravancando a evolução do Todo, que é a Criação do Pai.
Assim começam, sempre, os grandes problemas que hoje assolam o plano material.
Se você enxerga um Exu trabalhador como eu e se apavora, tenha certeza, você trabalhou muito, mesmo que inconscientemente, para a construção desse arquétipo.
Quando deparar-se comigo, seja no cemitério, num trabalho de Umbanda ou Quimbanda, ou, até mesmo, nas trevas, estará olhando para o seu interior.
Não tenha medo do meu corpo esquelético.  Por que posso ser seu amigo e auxiliá-lo a subir, a galgar novos degraus na sua escala evolutiva. Mas também posso ser aquele que aplicará a Lei de Deus, deixando-o nas trevas até que você reforme-se internamente e consciencialmente.
Só dependerá de você, tenha certeza!
Por isso, encerro esta mensagem suplicando a todos os humanos encarnados que joguem o preconceito para baixo dos seus pés, pra bem fundo, para que ele caia onde deve ficar,  nos domínios da ignorância. E que olhe para o Alto, eleve o pensamento ao Pai e se comprometa em contribuir na constante evolução da Criação.
Deixe o amor fluir. Então, olhará para mim e verá um amigo, um irmão que quer ajudá-lo a trilhar seu caminho sem percalços.
Venha! E, se precisar, apoie-se no meu cetro. Ele estará sempre á sua disposição, desde que queira ser mais um filho de Deus atuando dentro e em prol da Lei D’Ele.
Eu sou Exu Caveira!

Mensagem  Recebida por André Cozta
Rio de Janeiro- 25 de maio de 2012- 01:13h
http://terradeaganju.blogspot.com.br/2012/05/o-anfitriao-do-campo-santo.html